Contraste.

Muito bem, depois de todos esses dias sem escrever um artigo para o blog, resolvi pegar um tempo e me concentrar em algum tema mais teórico para fazer entender o porquê me é tão fascinante o mundo da iluminação. A luz como qualquer elemento físico comporta várias características, diferentes e paralelas: índice de reprodução de cor, temperatura da cor, contraste, entre outros mais técnicos como luminância, iluminância, etc.

Hoje o contraste ganha espaço.

O ato de ver implica na recepção de infinitas modulações luminosas presentes no ambiente observado. Um objeto parece tal à nossa visão porque ele se delimita sobre um fundo, mais ou menos iluminado, ou então porque as suas partes têm diferentes níveis de iluminação.

Isso se dá porque o olho humano percebe a diferenciação da luminância. Como?

Quando se varia a intensidade de luz do objeto observado, alguns elementos do olho reagem proporcionalmente: a íris age como um diafragma da máquina fotográfica, regulando quanta luz entra nos nossos olhos. As pequenas fibras muscolares dela – circulares em forma concêntrica – se contraem, reduzindo assim a área da pupila.  Já as fibras em forma de raios agem na maneira oposta, dilatando a pupila quando necessário. O vídeo a seguir mostra exatamente o que todos nós estamos acostumados e já não reparamos direito…

O interessante é que a proporção do dilata-contrai é proporcional à relação entre a MÉDIA geral da iluminação no espaço e os picos – mais e menos – iluminados. É como se automaticamente as fibras da íris fizessem um cálculo matemático rápido para chegar então ao quanto deve alterar a área da pupila.

Isso explica perfeitamente as imagens utilizadas como exemplos de ilusão ótica abaixo.

ilusao de otica

Os retângulos centrais são da mesma tonalidade de cinza?

Com o fundo escuro do retângulo à esquerda, o olho acaba percebendo o cinza no centro com maior contraste, resultando mais claro do que o retângulo interno à direita, mesmo não importando se ambos são exatamente o mesmo cinza. Você pode fazer a prova, imprimindo as imagens e sobrepondo-as: será a mesma cor.

A precisão visual do espaço melhora com a presença de contrastes marcantes nele. Ver não está relacionado somente com a quantidade de luz, mas também com a sua variação, o contraste.

E o melhor de tudo é que, mesmo tendo a melhor situação de contraste, cada um percebe de forma particular os detalhes do ambiente que se encontra, não importa a atenção e concentração que aplica. Essa precisão visual serve mais à medicina oftalmológica que aos lighting designers, mas ignorando problemas patológicos ou outros defeitos, na iluminação esse conceito se aplica fornecendo uma maior quantidade de luz para atividades que exigem maior atenção visual, com a correta diferenciação entre o plano de trabalho e o fundo do espaço. O resultado é oferecer a situação mais confortável possível para desenvolver a ação, causando menos fadiga ao músculo ocular.

Ou seja, um ambiente bem iluminado é sim um ambiente mais saudável, seja ele doméstico ou profissional, trazendo mais qualidade de vida ao usuário.

fonte:

Lighting. Forcolini, Gianni. Ed. HOEPLI. 2008

Anúncios

Jacopo Foggini

Mais um exemplo em que a arte e a luz se encontram e se complementam são as obras de Jacopo Foggini.

Nascido em Turim e hoje possui seu Studio em Milão, elabora suas obras a partir de um único material: o metacrilato. Uma resina termoplástica, sintética e econômica, utilizada em fábricas de carros para compor dos refletores dos faróis dos carros, onde destas são feitas milhares de cópias por dia.

Pois Foggini descobriu ali um material que poderia ser usado longe da produção em massa e sim criar objetos de design e de arte únicos, artesanais e poéticos.

Então com uma máquina que ele próprio inventou, leva o metacrilato a 200ºC, transformando-o em uma espessa massa onde depois ele molda com as próprias mãos, formando objetos que pariam entre os conceitos arte e design.

Como o metacrilato, além de ser um material que possibilita infinitas formas, é um material translúcido e a luz se torna fundamental para que a sua obra crie vida e realce suas cores.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Suas obras já foram expostas em muitas galerias pelo mundo e também Foggini produz uma variedade de obras que complementam a arquitetura, como paredes inteiras trabalhadas em metacrilato em diversas cores com retro-iluminação, para um hall de hotel por exemplo.

Algumas das obras que pude visitar pessoalmente, foram as expostas na época do Salone Del Mobile, que acontece todo abril em Milão. O espaço escolhido é o pátio interno da Università Statale di Milano, um dos edifícios antigos mais belos da cidade e nesta época serve de palco para diversos artistas, entre eles Jacopo Foggini.

Em 2009, ele apresenta a obra (Re)Fuse, em que ele utiliza todos os restos de outras obras e as recicla, criando um grande mar de diferentes formas, cores e transparências.

Em 2010, foi a vez da mostra Golden Fleece, onde ele cria um elemento translúcido com luz colorida refletida sobre ele, suspenso no ar. Como o tema daquele ano era repensar sobre o futuro, ele quis passar a reflexão de não deixarmos de sermos nômades, que não deixemos de mudar para que tenhamos um mundo melhor no futuro.

Em 2011 foi a vez de Plasteroid, um planeta, um novo mundo, onde o artista nos levou a refletir sobre como tudo hoje se tornou descartável e nos remete ao retorno às preocupações com a natureza.

Jacopo Foggini é um artista do nosso tempo, onde ele tira idéias criativas a partir de elementos simples, recriando-os, nunca esquecendo os seus princípios, origens e preocupação ambiental.

Referências e imagens: http://www.jacopofoggini.com/

                                        http://www.leonardo.tv/DesignBook/page/jacopo-foggini.aspx

Urban Nature – Skatepark

Recebido o aval para a publicação do projeto, venho hoje apresentar uma arena para skatistas na Suécia.

Os arquitetos italianos Traverso e Vighy, com sede em Vicenza na Itália, explicaram a obra realizada no site Europaconcorsi.

A idéia foi usar a pista de skate existente como um conector entre o centro da cidade e o parque do outro lado, um ponto de encontro para os cidadãos jovens de Alingsas. Que aliás participaram ativamente do programa de necessidades montado pelos arquitetos.

Eles perguntaram aos usuários, seja de skate ou bicicleta, que emoções experimentavam enquanto usavam a estrutura: o movimento contínuo e circular e a proximidade com a natureza os dão concentração e ao mesmo tempo relaxamento. A partir daí ele começaram a desenvolver o conceito do projeto, transportando o conhecimento luminotécnico para a pista de skate.

A sequência:

A projeção começa com uma lua projetada ‘dançando’ sobre o chão de concreto e então se direcionando a uma das telas a LED posicionadas lateralmente. Então a simulação do sol nascendo através da floresta verde, se transforma em vulcões em erupção. As ondas do mar, então projetadas, afastam a lava, tornando a pista de skate em um ambiente marinho, ndas profundezas.

A cena final contrasta com a paisagem ‘natural’ proposta: um PACMAN que se move rapidamente entre a malha pintada no chão com tinta UV e nas telas de LED.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ficha técnica:

O projeto de Alingsas se baseia na apresentação luminosa de 12 minutos com a projeção de uma luz “floor washer” (quando a luz é orientada de forma radente, ‘lavando’ o pavimento). Essa iluminação foi conseguida com 20 projetores especiais a LED tendo os efeitos por 4 Martin Moving Heads (aqueles projetores malucos que você vê em discoteca ou shows projetando imagens luminosas em movimento). O resultado, controlado por computador e baseado em sons naturais, é um ritmo dinâmico com a luz primeiramente inerte, passando por lampejos e diversas nuances e intensidades.

Nota:

Essa instalação luminosa fez parte do evendo ‘Lights in Alingsas‘ que acontece todos os anos no mês de outubro na cidade desde 2000.


Fête des Lumières

O inverno na Europa tem as suas noites longas bem aproveitadas com eventos de iluminação e clima natalício.

Uma das festas mais famosas é a Fête des Lumières em Lyon, França. O interessante por aqui é que para tudo existe uma história que remonta séculos…

A do evento, está ligada com a religiosidade da cidade. (Engraçado como a Arquitetura e a evolução cultural e política esteve sempre ligada com a religião!). Desde a Idade Média, a cidade de Lyon tinha como padroeira a Virgem Maria, ainda mais depois de 1643, com a peste negra pairando sobre toda a Europa. A cada ano as autoridades locais rendiam homenagens à Santa, rezando para que a doença acabasse. Desde então, todo dia 08 de setembro se realiza uma procissão até a Catedral da cidade.

Dois séculos mais tarde, resolveram erigir uma estátua da Virgem Maria na Capela sobre a colina Fourvière da cidade. A idéia era inaugurá-la no dia 08 de setembro, mas naquele ano devido ao mau tempo – enchente do rio Saona, um dos dois que circunda a cidade – ela acabou sendo colocada no local no dia 08 de dezembro, o dia da Imaculada Conceição.

Foi então que a população de Lyon, em um gesto espontâneo, resolveu iluminar as janelas das suas casas, com velas e candelabros para comemorar a data. E daí nasceu a Fête des Lumières, evento anual na cidade!

Em 1989 o governo municipal resolveu investir na idéia. O que nasceu com a espontaneidade do povo acabou se transformando em uma verdadeira festa, com todos que saem de suas próprias casas para ver o espetáculo criado.

A Fête des Lumières como vemos hoje em dia, dura 4 dias, tendo o 08 de dezembro no meio das comemorações. Em 2006, o evento ganhou o prêmio Grand Public pela sua importância adquirida nos últimos anos, atraindo milhares de turistas para Lyon.

Instalações luminosas são espalhadas pela cidade, nos mais importantes edifícios e pontos turísticos. O interessante é que os turistas, mesmo com o frio intenso tradicional do início de dezembro, vão para a rua até a madrugada, circulando a pé por quase toda zona central, atravessando o rio e o vinho bruleè aquecendo os desavisados (como eu, ano passado) que não se agasalharam o suficiente.

E todo o ano se repete esta belíssima festa, dos dias 8 a 11 de dezembro, quem estiver por perto, fica a dica! Algumas fotos que tiramos da Festa de 2010:

Este slideshow necessita de JavaScript.

Um pouco sobre a cidade…

Lyon é a terceira maior cidade da França, com mais de dois mil anos de História, antiga capital da Gália no Império Romano e por isso e pela preservação de seu centro histórico, definida Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Banhada por dois rios, o Saona e o Rodano, a cidade tinha grande importância comercial dentro do Império Romano e no mercado das sedas. Mas a cidade, atravessando o rio Rodano, tem o centro moderno, com o enorme parque La Tête D’Or, próximo aos arranha-céus modernos, inclusive o projeto da Cidade Internacional de Renzo Piano, iniciado em 1989 e finalizado em 2006. Outra grande interveção arquitetônica na cidade foi a Opera House feita por Jean Nouvel em 1993 onde vemos uma perfeita adaptação do passado histórico à contemporaneidade.

Olafur Eliasson

Em homenagem a este grande artista que está expondo algumas obras em São Paulo neste mês, resolvi registrar aqui neste blog alguns de seus mais impressionantes trabalhos relacionados ao utilizo da luz na arte.

Eliasson, nascido em Copenhagen, estudou na Academias de Finas Artes da Dinamarca, trabalhou em Nova York, Colônia e em 1995 montou seu Studio em Berlim, que hoje conta com uma equipe de mais de 45 pessoas, entre elas arquitetos, engenheiros, escritores e filósosfos.

Eliasson também é professor da Universitat der Kunste Berlin, onde há um projeto paralelo muito interessante chamado Instituto de Experimentos Espaciais (Institut fur Raumexperimete), onde ali ele e seus alunos abrangem, vivenciam e experimentam de uma forma menos convencional e mais livre todas as formas de arte, relacionando estas sempre com o seu entorno, a cidade e a sociedade. Eliasson acredita que o modo como é o ensino hoje é muito limitante: “Uma educação alternativa deve oferecer ferramentas para a criatividade em proporções artísticas que tenham conseqüências para o mundo. Eu espero estabelecer uma escola de perguntas ao invés de respostas, de incertezas e dúvidas. E se mudanças cruciais acontecem em um nível microscópico, um sociedade inteira pode com o tempo mudar”, diz ele.

Esta é a essência da sua arte, utilizando elementos simples como a luz, vidro e água, ele cria experiências visuais e sensoriais decorrentes do nosso próprio cotidiano, das paisagens naturais que nos rodeiam, trazendo uma reflexão e outros pontos de vista sobre aspectos e momentos que nos deparamos muitas vezes, talvez até mais que uma vez no mesmo dia.

É nada mais que a poetização do relacionamento entre este ser complexo que é o ser humano com o espaço em que ele vive.

Algumas obras que acho interessantes:

Beauty: com o intuito de recriar paisagens e sensações do dia-a-dia para dentro dos museus, ele recria um arco-íris a partir de gotículas de água, deixe que ele mesmo te explique, veja:

Ele levou também cachoeiras que brotam de seus prédios e pontes em Nova York, com Waterfalls (foto) esta mostra também já esteve no Brasil em 1998.

 360 room for all colours: o visitante experimenta com intensidade o expectro de cada cor.

O incomparável The Weather Project, um pôr-do-sol dentro do Tate Modern, em Londres, que já passou por aqui neste blog em outro post!

Colour Spectrun Kaleidoscope:

I Only see things when they move, onde vidros com diversos filtros coloridos quando rotacionados criam este espaço dinâmico com a luz.

Quase Bricks, com espelhos em diversas posições ele cria uma parede caleidoscópica.

Your invisible House:

Colour square sphere:

Multiple Shadow house:

Mikroskop:

Harpa Reykjavik Concert Hall and Conference Centre:

Como o tempo é inseparável do espaço, é também a forma do conteúdo. Arte não é um exercício formal. Para mim, duração, espaço, forma, intenção e engajamento individual constituem uma complexidade na qual devemos articular e amplificar.” Olafur Eliasson.

*Imagens: http://www.moma.org/interactives/exhibitions/2008/olafureliasson/#/intro/                    http://www.olafureliasson.net/index.html

Olafur Eliasson e a importância do sol

Não é a toa que no primeiro post eu mencionei a frase da Bíblia FIAT LUX! (e que se faça a luz!).

Sem entrar em méritos religiosos, a luz solar está intrinsecamente ligada ao nosso organismo. Não é só uma questão psicológica, o sol ativa os nossos hormônios – melatonina e serotonina – e regula o nosso ciclo circadiano, que nos fazem ter sono durante a noite e despertar de manhã com a luz do sol. Esse ciclo também pode ser alterado com a luz artificial. E aqui está a verdadeira importância de um projeto luminotécnico bem realizado: a qualidade do sono.

Mas tem outros fatores que só a luz do sol pode nos fornecer: a absorção da vitamina D que fortalece o nosso sistema através da radiação UVB. Estudos afirmam que a produção da vitamina deve ser potencializada em países onde a incidência solar é menor com apenas meia hora ao dia, rosto e braços expostos SEM proteção solar. O protetor solar nesse sentido, acaba bloqueando tanto raios UVA como o UVB. Então, já que o ideal é ter nessa meia hora a pele totalmente “desprotegida”, temos que usar a consciência para a exposição nos horários corretos. Nada de se colocar ao meio-dia embaixo do sol. Mesmo no inverno ele queima.

Há alguns anos atrás, Olafur Eliasson, um lighting designer dinamarquês – que estará expondo sua obra na Bienal de SP este ano – realizou uma instalação no Tate Modern em Londres.

Todo mundo sabe que Londres é conhecida como a cidade da neblina, onde pouco se vê o sol, durante todo o ano.

A ideia dele foi justamente transportar o sol, que quase não tem lá, para dentro do edifício. A instalação “The Weather Project” foi um experimento atmosférico com os londrinos: um sol que não se põe nunca durante todo o inverno. Utilizando toda a sala das turbinas, da antiga central elétrica onde hoje se encontra o museu, comprida 155 metros e larga 23 metros, Olafur Eliasson montou um sol artificial com 200 lâmpadas a vapor de sódio atrás de uma semi-esfera translúcida. O teto foi todo revestido por lâminas espelhadas, assim a semi-esfera se transforma na esfera completa correspondendo ao sol. O vapor de sódio foi escolhido como tecnologia da lâmpada pela cor da emissão de luz, amarela-alaranjada, lembrando o sol quando se põe.

O legal de tudo isso é que a instalação é realmente simples. Eliasson não utilizou nada de demasiadamente tecnológico. Espelhos, lâmpada de vapor de sódio (entre as mais baratas – dura tanto, faz muita luz em relação à potência dela, o que explica o porquê dela ser largamente utilizada na iluminação pública em geral), e um pouco de vapor de água para lembrar o clássico clima londrino.

O interessante foi o resultado dessa experimentação: as pessoas que ali entravam se sentiam tão bem ao ponto de sentar, deitar por minutos, como se realmente estivessem em uma praça ensolarada. O vapor quando se condensava criava a sensação de nuvens, tornando o projeto mais dinâmico e mais próximo da realidade.